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Viagem no tempo-espaço com um ramo de oliveira

Terça-feira, 30.03.10

 

Esta é a minha semana preferida do ano, a que vai do Domingo de Ramos ao Domingo de Páscoa. Assim como o meu mês preferido é o Maio florido. E a estação do ano, a Primavera. E a flor, a rosa frágil e efémera, mas tão perfumada, de Santa Teresinha.

Num tempo em que se desvalorizam os símbolos, os rituais a marcar o nosso percurso, a dar-lhe um ritmo e um sentido, e a lembrar-nos a nossa condição frágil e transitória, mas única e irrepetível, mantenho só para mim os meus próprios marcos. E esta semana é um deles.

E não consigo evitar, tal como o protagonista do Life on Mars, viajar no tempo até essa Páscoa nos finais dos anos 60, em que levei um ramo de oliveira, tal como todos nesse Domingo levaram, nesse Domingo de Ramos.

Eu era, digamos, o que se pode chamar uma criança impressionável, levava tudo muito a sério. Vivia a realidade como se fosse um filme e via os filmes como se fossem realidade. Aquele ramo de oliveira simbolizava a paz. Protegi-o como a uma preciosidade.

 

Hoje, depois do regresso no tempo-espaço, vejo o terrível paradoxo da natureza humana nesse percurso de Cristo, aclamado e acarinhado pela multidão, para pouco tempo depois escolherem Barrabás. Este é um dos dilemas da natureza humana.

O próprio percurso de Cristo, nesse período, revela-nos, de certo modo, a história humana que se repete pelos tempos sem fim todos os dias e em todos os lugares do mundo. Revela-nos que a paz é efémera, um impulso frágil, um entusiasmo. Como se as pessoas não conseguissem nela permanecer por muito tempo ou não conseguissem coabitar sem conflitos. Cristo foi acarinhado pela multidão nesse dia de ramos... para, na hora da verdade, em que a paz era mais necessária, o discernimento, a consciência, a empatia, ser esquecido e abandonado.

Esta é uma visão muito simplista da história, eu sei, Cristo tornou-se incómodo para os representantes religiosos (esqueço-me sempre dos termos correctos, enfim, para a hierarquia religiosa, os sábios, os doutores, que um dia o tinham ouvido em menino no templo). A sua mensagem comprometia a sua posição, tal como hoje, os representantes da hierarquia, e já nem me refiro apenas à Igreja que até tem insistido nisto, mas ao poder temporal. Preferem calar a escravização em curso do povo que supostamente representam porque os elegeu, a perturbar a lógica injusta e ilegítima de privilegiados (a "nova elite") e escravos (o contribuinte de fracos rendimentos e o reformado indefeso). Sim, a mensagem de Cristo comprometia a diplomacia conveniente com o poder de Roma.

 

Mesmo que Cristo tenha definido as fronteiras naquela frase A César o que é de César, a Deus o que é de Deus, não se submeteu à lógica da linguagem do poder, colocou-se num plano imune a essa lógica terrena, o seu reino não era deste mundo, e isso era incompreensível, inaceitável. Ainda hoje me interrogo: a que é que Cristo se referia, em que plano ou dimensão, quando define aquela fronteira enigmática?

Inclino-me a pensar que essa frase ainda hoje é mal interpretada por muitos. Porque a mensagem de Cristo compromete, desde logo, esse limite, ao colocar todos na dimensão de filhos de Deus, todos, sem excepção, numa irmandade igualitária. Isto implica a libertação da escravidão, a sua mensagem não pode conviver com donos e escravos, com a linguagem do poder. E os homens que espalham a mensagem não podem ficar indiferentes a essa lógica que escraviza, simplesmente não podem. A sua mensagem também implica a dignificação da vida de cada um, como única, preciosa, irrepetível. Novamente, o que fazeis ao mais pequeno de vós é a mim que o fazeis.

 

Mas poderia a frase significar que estes dois planos, o terreno e o divino, nunca se encontram, nunca coexistem? E, tal como no filme Rio sem Regresso, quando Marilyn sonha viver num lugar onde as pessoas sejam tratadas como seres humanos, Robert Mitchum responde: Isso é no céu...? Como se não fosse possível viver essa paz e respeito mútuo no plano terreno? Mas não faz sentido. Essa é a lógica do mártir, e ficaria por aí, pela sua afirmação libertadora através da sua morte, e pela repetição de martírios sem fim à vista que não seja perpetuar a vítima e reforçar o poder do predador. Já para não falar dos mártires de que não sabemos, essa pena máxima silenciada, sem julgamento sequer...

 

E tudo isto num simples ramo de oliveira que levei nesse Domingo de Ramos numa Páscoa de finais dos anos 60...

É por tudo isto que em vez de paz prefiro dizer empatia, porque é a capacidade humana de sentir o que o outro sente, a única que permite essa libertação da lógica da linguagem do poder, que cria conflitos porque não sabe (não pode) viver em paz, porque precisa de dominar e manipular para preencher o seu vazio interior, porque é o ódio e a morte que o motivam (e que também definem a sua acção).

E sim, é possível aprender a viver na cultura da amabilidade na diversidade. E sim, é possível identificar as sementes de violência e os "falsos deuses" que dela se alimentam. E sim, é possível a responsabilidade individual, cada um no seu papel, na colaboração mútua. E sim, é possível uma nova organização social mais livre e, ao mesmo tempo, mais equilibrada e justa e, por isso mesmo, mais inteligente também.

 

 

 

Também aqui: sobre a composição de Jesus Christ Superstar.

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 13:01

Em azul e branco

Sexta-feira, 26.03.10

 

 

Em azul e branco

a bandeira mais poética

solitária, ao vento

marco de outro tempo

 

Sinto que é esta a que me diz

da vida possível

da vida sonhada

de um povo feliz

 

Sinto e sei porque sinto

que não há outra

que me faça sentir assim

em azul e branco

em poema ao vento

 

Está inscrita num lugar de mim

a que não se vai

a não ser por bem

 

Está inscrita num lugar de nós

na casa, na aldeia, na cidade de nós

no coração em azul e branco

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 21:53

"Libertar o futuro"

Sábado, 20.03.10

 

Vivemos na cultura da banalização. Poderia ter escolhido "a cultura da banalidade" ou "das banalidades", que também o é, mas a verdade é que a cultura actualmente mais influente, a que vemos nas televisões, na rádio, nas revistas, a que se propaga e contamina tudo o que nos envolve, é mais do que simplesmente banal. Sim, a actual cultura vigente banaliza tudo: a vida, os afectos, os sentimentos, as emoções, o sofrimento, os acontecimentos, as pessoas. 

Ao dessacralizar tudo, ao retirar o seu significado único, irrepetível, profundo, coloca tudo no mesmo plano, e esse plano é o da indiferença.

 

É por isso que se generalizou a ideia de que os políticos são todos iguais, os partidos são todos iguais, e que não vale a pena mudar porque vai ser a mesma coisa.

Este discurso cínico da indiferença e da impotência é o mais prejudicial possível na actual situação do país.

O melhor discurso, o que liberta e mobiliza, é o da verdade. Não a verdade embrulhada em desculpabilização, com os alibis do costume. Aliás, alibis que já não pegam.

 

Esta cultura da banalização apoia-se nos jornalistas e comentadores de serviço para matraquear diariamente a versão oficial e meter tudo no mesmo saco. Da forma mais superficial possível. Sem argumentação válida. E sem verdadeiro debate de ideias, só mesmo banalidades.

Mesmo estes estudos pseudo-científicos baseados em inquéritos mais que discutíveis com amostras mínimas, sem neutralizar factores que interferem num estudo científico, sem validação fidedigna, tudo é válido para espalhar a versão que convém ao situacionismo.

 

É o mundo das sondagens pré-eleitorais, que dramatizam as expectativas e pretendem influenciar os eleitores.

Alguém duvida hoje que Paulo Rangel é o que faz tremer os socialistas?

Alguém duvida que o preferido do situacionismo desta cultura da banalização é Passos Coelho? 

 

Não se pode meter tudo no mesmo saco, deve cultivar-se a observação e a reflexão. Distanciarmo-nos do barulho que por aí vai.

Atirarem-nos com números que nem sequer são fiáveis, não nos impressiona. Já vimos como os números são facilmente manipuláveis. 

Se até mesmo os números que se aproximam da realidade acabam por banalizar essa mesma realidade se mal interpretados e mal utilizados...

 

Por isso estou confiante: o PSD ainda tem uma grande reserva de auto-preservação e instinto de sobrevivência para não se deixar iludir. Mostrou que está vivo, como já há muito não o víamos, e é essa energia que deve manter, essa vitalidade.

O seu maior trunfo? A política de verdade, porque é de verdade que o país precisa. E depois, da mobilização de todos, porque estamos todos no mesmo barco. E teremos de colaborar, cada um na sua dimensão própria do possível e do justo.

 

Essa mobilização não surgirá por acaso, mas se souberem escolher quem melhor representa essa energia vital, essa convicção, essa alma acesa.

Aliás, no Prós e Contras mais recente, repararam como foi precisamente o médico, director do Hospital de Santa Maria, o que melhor percebeu isso?, percebeu que qualquer coisa de muito errado se está a passar. Falou em desânimo, perda de energia, e a generalizar-se. As pessoas precisam de esperança, de acreditar em qualquer coisa, de um futuro.

Sim, precisam de futuro, e sentir que estamos todos juntos a colaborar na direcção desse futuro possível.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 16:08

"E ninguém se revolta com isto?" (Bagão Félix, sobre o PEC)

Quinta-feira, 18.03.10

 

Ontem ainda consegui assistir aos resumos do debate na AR sobre o PEC, a constituição de uma comissão de inquérito e as trocas acesas entre Marques Guedes e José Lello. E consegui ainda perceber, numa notícia de um dos telejornais, que surgiram problemas nas negociações dos sindicatos dos professores com a ministra da Educação. E ainda ouvi Carvalho da Silva sobre o PEC. Que o povo se iria mobilizar. Mas desta vez não me soou a PREC, apenas me lembrei do que Medina Carreira anda a dizer há 2 ou 3 anos: as pessoas vão-se revoltar perante estas enormes diferenças sociais.

 

Em relação ao debate na AR: sobre o PEC, esse estado novo reeditado, irei falar a seguir, sobre a comissão de inquérito apenas dizer que é uma das funções de um parlamento numa democracia. E sobre a divergência entre os dois deputados: o PS, à falta de argumentos, quer colar o PSD à falta de liberdade de expressão interna. É risível. O PSD é o partido que mais pratica a liberdade de expressão. A norma estatutária que tem dado tanto alarido dirige-se apenas aos ilustres que se põem a criticar as orientações do próprio partido nas televisões, em vez de o fazer dentro do partido, como aliás deve ser.

Assim, José Lello teve de se confrontar com a sua contradição, pois referiu, num debate televisivo, que Manuel Alegre tinha falta de carácter. E porquê? Porque se distanciou uma ou duas vezes da orientação oficial do PS. Resultado: José Lello ficou vermelho e teve de engolir a verdade sobre a magnífica liberdade de expressão dentro do PS. 

Mas mesmo na discussão sobre o PEC e sobre a constituição da comissão de inquérito, a argumentação do PS baseou-se no seguinte: trata-se de uma perseguição ao PM e o PSD sofre de asfixia democrática. É esta a argumentação do PS, nada mais.

 

Depois destes resumos, passei à Sic Notícias e ainda vi e ouvi o final da entrevista de Mário Crespo a Bagão Félix. O que lamentei não ter conseguido apanhar toda a entrevista...

Foi reconfortante ouvi-lo, porque fora Medina Carreira e uma ou outra voz mais lúcida, ninguém fala assim no país.

Consegui registar esta frase sobre o PEC, aí vai:

Este PEC é muito presente nos impostos, vago na despesa, omisso na poupança e ausente na economia.

Isto diz tudo. Mas há mais:

O PEC é contra a família. Bagão Félix explica que o PEC trata de forma igual famílias com muitos filhos e as restantes famílias.

Em relação aos reformados: Então os desgraçados com as pensões mais baixas, de 187 euros, vão ver as suas pensões congeladas até 2013?

O país precisa de um reforço de decência. Há muita falta de decência no nosso país.

É um Bagão Félix perplexo e emocionado que pergunta quase no final: 

E ninguém se revolta com isto?

Onde está a Igreja? Está anestesiada? No meu tempo de ministro e no tempo de Guterres, ainda saíam umas Notas Pastorais...

 

Com estas frases registadas nos neurónios, passei para as únicas séries televisivas que acompanho, Life on Mars e Lie to me, que preenchem actualmente o meu serão das 4ªs feiras.

No final, ainda consegui ouvir um Manuel Villaverde Cabral muito inflamado nos segundos finais do programa Roda Livre da TVI 24: Não é certo que quem romper com esta paz podre vá ser penalizado... penso que se referiu ao Presidente, porque falou em reeleição.

Porque é que será que juntaram todos os programas interessantes nas 4ªs feiras à noite? A ver se consigo ver a repetição do Roda Livre na TVI 24 às 13 e pouco. E a ver se voltam a passar na SIC excertos da entrevista a Bagão Félix.

 

Sim, este é o estado novo reeditado. Bem pior do que na primavera marcelista em que a Igreja tinha uma voz pelos mais desprotegidos da comunidade. E as elites culturais tinham um papel muito significativo. Nunca aliás houve tanta energia vital, tanta criatividade, tanto entusiasmo, tanta esperança... Talvez não seja por acaso que os jovens estão a recuperar Ary dos Santos.

Quanto ao poeta da Trova do Vento Que Passa... que me levou a votar em 2006, numa recaída patética na nostalgia de um tempo que passou para sempre (os trovadores de Coimbra dos anos 70), já não convence ninguém. Essa Trova é como o PS e o socialismo: um equívoco.

 

 

 

Dois dias depois: Quanto à Igreja, seria injusto não referir aqui as vozes dessa igreja viva, essa luz acesa, de D. Manuel Martins, D. Januário Torgal Ferreira e D. Carlos Azevedo. Haverá outras vozes certamente, mas estas foram as que eu ouvi.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:48

Do Tempo das Descobertas: O vento e os salgueiros

Quarta-feira, 17.03.10

 

Do Dias com Árvores, este poético post sobre salgueiros e vento. Paulo Araújo refere na resposta ao meu comentário que o título foi inspirado num romance para crianças de Kenneth Grahame, mas a mim lembrou-me de imediato o vento nas árvores dos filmes de David Lean.

 

"  O vento e os salgueiros 


Salix atrocinerea Brot. [em cima os amentilhos femininos, em baixo os masculinos]

As árvores europeias mais comuns não se destacam pela floração vistosa. Muitas delas confiam ao vento o trabalho de polinizar; e, como ele não é caprichoso e faz o serviço de graça, não há razão para tentar seduzi-lo. As flores masculinas surgem em cachos pendentes e flexíveis - os amentilhos - que foram feitos para dançar ao vento, largando o pólen enquanto se saracoteiam. As flores femininas, por seu turno, quase não se vêem: basta que estejam lá, abertas para receber esse pó fecundo que tantas alergias nos provoca. Carvalhos, bétulas, avelaneiras e amieiros, todos eles optaram por esse modo de reprodução que dispensa a ajuda das abelhas e de outros insectos diligentes.

À primeira vista, os salgueiros (género Salix) fariam igualmente parte do clube das árvores auto-suficientes. Afinal, as suas flores também vêm dispostas em amentilhos, e não são particularmente chamativas nem pela cor nem pelo cheiro. Existem, porém, duas diferenças cruciais: os amentilhos não são flexíveis, e há-os de dois tipos, masculinos ou femininos. É que os salgueiros são dióicos, querendo isto dizer que há árvores dos dois sexos, cada qual com o seu tipo de flor. Os amentilhos masculinos não se balançam ao vento, e os femininos não se esforçam por passar despercebidos. A revelação de que os salgueiros são polinizados por abelhas e mariposas não surge assim como surpresa. E há recompensas para garantir que os bichos cumprem a tarefa de bom grado, pois tanto as flores femininas como as masculinas estão equipadas com nectários. Tirando isso, umas e outras adoptaram um formato minimalista: as masculinas são quase só estames, e as femininas reduzem-se aos ovários.

A dispersão das sementes é a fase do ciclo de vida dos salgueiros em que eles pedem ajuda ao vento. Para melhor esvoaçarem, as diminutas sementes vêm envolvidas por pêlos sedosos. É o contrário do que sucede com os carvalhos: embora eles sejam polinizados pelo vento, as bolotas que produzem nada têm de aerodinâmico. E há ainda outras árvores, como os choupos e os plátanos, que usam os bons ofícios do vento em todas as fases da sua propagação.

Com a sua copa baixa e arredondada, o salgueiro-preto (Salix atrocinerea) é um dos salgueiros mais abundantes no nosso país, formando bonitas galerias ao longo de rios e de outros cursos de água. É também, por florir precocemente, uma importante planta melífera numa altura do ano em que são escassas as flores. Já o tínhamos
mostrado em Santo Tirso acompanhando as curvas do rio Ave. Corria então o mês de Fevereiro e a floração estava no auge, mas agora que Março vai embalado já não sobram muitos dias para ver o espectáculo. Uma observação atenta de uma fiada destes salgueiros permite, mesmo ao longe, diferenciar o amarelo das copas masculinas do verde das femininas.

As fotos de hoje foram tiradas na freguesia do Campo, em Valongo, ao fundo de uma elevação onde se instalou uma grande pedreira para extracção de xisto. Curiosamente, os salgueiros não colonizaram as margens do rio Ferreira, mas apenas as de um magro ribeiro - pouco mais que um fio de água, inteiramente escondido pelas árvores - que nele ali desagua.

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 15:47

Coisas simples: as memórias felizes

Sexta-feira, 12.03.10

 

Não é propriamente nostalgia, mas mais uma ligação a sensações, emoções e sentimentos que experimentei ao longo dos anos em determinados momentos felizes.

Geralmente é pela música, uma música determinada, que tenho acesso a esses momentos felizes. Mas também pode ser um dia de sol, como hoje, ou gestos simples como cuidar das plantas, ou cantar, ou dançar...

Retenho esses momentos felizes, essa claridade, essa respiração, para me acompanharem e inspirarem, uma vez que o que nos rodeia hoje em dia não é muito estimulante nem encorajador.

 

Ouvir falar da violência escolar sem castigo, de uma gestão escolar ausente... e do seu resultado dramático, um pré-adolescente que se atira ao rio e de um professor que se atira da ponte, porque chegaram ao limite do sofrimento suportável...

Ouvir um Presidente em entrevista, e acompanhá-lo penosamente no seu dia-a-dia mais que cinzento e impessoal, mais que ausente, talvez mesmo de um outro planeta...

Ouvir um ministro insultar os gestores locais, os que estão mais próximos das populações e lhes sentem as necessidades quotidianas...

Como disse Mota Pinto em discurso na AR: a ausência de verdadeiros estadistas nas rédeas do poder... Prisioneiro do seu calculismo político, o governo continua a colocar em segundo lugar o interesse nacional...

 

Sim, se não fosse a nossa incrível capacidade de nos distanciarmos da mediocridade que nos rodeia, da maior loucura e insensatez... e graças a estes neurónios, os nossos melhores aliados, que nos permitem deslocar a atenção para coisas bem mais merecedoras da nossa atenção e cuidados... sim, se não fossem osintervalos saudáveis onde se pode ir respirar para voltar à arena com outra disposição, outra energia, outro entusiasmo...

 

Podemos trazer para o nosso presente esses tempos felizes, não por desejarmos a eles voltar, mas simplesmente para nos lembrarmos dessas sensações, emoções e sentimentos, o melhor que somos.

Respirar livremente nessa claridade, nessa tonalidade, que é nossa e irrepetível, e não nos deixarmos contaminar pelo ódio que pressentimos à nossa volta, e o medo, que alimenta o ódio. E o mal, que se alimenta do medo e do ódio.

 

Haverá sempre loucos que tentam interferir na vida das outras pessoas, condicioná-las, utilizá-las, escravizá-las. E pessoas que se deixam deslumbrar por esses "falsos deuses" (Arno Gruen) que usurpam o poder. Este fenómeno será tema de um próximo post pegando neste autor que nunca esteve tão actual.

Sim, haverá sempre loucos a atropelar outros, porque se julgam superiores, de outro plano, acima das regras e dos limites, acima das éticas e dos equilíbrios. E haverá sempre conformistas a servir de capacho, a manter-lhes o cenário, a cobrir-lhes a retaguarda, a esconder-lhes as tropelias.

 

Retenho, pois, essa claridade e essa tonalidade, até sentir que, para lá de tudo, dessa ilusão maior, somos uma existência breve e fugaz...

Deixemos, ao menos, no nosso caminho, uma influência benigna. E que a nossa influência seja tão leve e imperceptivel que não seja sequer possível calculá-la ou avaliá-la. Essa é, para mim, a poesia mais elevada, a filosofia de vida perfeita.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 20:09

Pequenas alegrias: rever o "Picnic"

Domingo, 07.03.10

 

Hoje, no canal Hollywood. Difícil explicar como este filme me hipnotiza. Não é o único, mas tem sempre este efeito.

A peça, os diálogos, as personagens, são parte da explicação. Os actores também. A realização, a atmosfera, as cenas, os planos, o ritmo. O cenário, a época. A atmosfera de todo o filme.

 

Ao rever Picnic, talvez pela quarta vez, lembrei-me que tenho de actualizar o meu perfil, na parte dos filmes preferidos. E já agora, os livros também. Esta lista de autores acompanhou uma parte do meu percurso e por isso lhes estou grata. E à vida também. Como poderia ter sobrevivido estes anos todos se não fossem os meus autores? Impossível. Mas descubro, com alguma perplexidade, que qualquer coisa de fundamental se está a revelar através das alterações na minha lista de filmes preferidos.

 

Picnic faz parte dessa lista de filmes, e eu nem tinha reparado. É sempre a mesma magia. Aqueles subúrbios nos anos 50, uma cidadezinha a crescer, com rituais culturais de cidade do interior, de uma vida muito comunitária. De estratos sociais muito definidos. De ambições legítimas de um lugar ao sol. De oportunidades que se têm uma vez na vida. De inícios de percursos até aí apenas acessíveis a alguns.

 

Estereotipos sociais de que é difícil escapar: o atleta que podia ter sido alguém se não tivesse reprovado no 3º ano da faculdade; o filho de pai rico e a aprendizagem da gestão da empresa; o pai rico e competitivo, respeitado na cidade; o homem solteirão habituado ao seu espaço e aos seus hábitos; a rapariga bonita e encantadora, que quer amar e ser amada; a rapariga inteligente, a intelectual; a mãe, que apenas quer o melhor para as suas filhas, mas segundo a sua própria perspectiva; a mulher tranquila e realista que serve de suporte afectivo àquela mulher que o homem abandonou, e às suas filhas; a professora independente, que percebe subitamente que a arrogância a distanciou das suas verdadeiras necessidades.

 

Como escapar ao estereotipo social numa pequena comunidade?

A rapariga bonita consegue. Depois de ajudar o homem, a quem consideram falhado, a ver-se a si próprio pelo seu olhar carinhoso e generoso: tens óptimas qualidades. É dessa amabilidade que o homem precisa para acreditar em si próprio e recomeçar de um outro ponto de partida. Ele também lhe mostrara que ela era bem real, de carne e osso, e não uma miragem que serve de troféu.

A professora independente também consegue. Reconhece o seu erro nessa noite de loucura e de lucidez, e revela o seu receio essencial ao namorado solteirão que ainda tenta esquivar-se. Em vão. Na manhã seguinte já tem o destino traçado: casamento e lua-de-mel.

 

Nunca poderemos avaliar os efeitos nocivos e perversos dos estereotipos sociais. É certo que as pessoas têm esta terrível tendência de arrumar tudo em gavetas e prateleiras, mas tal nunca será possível com a complexa natureza humana. Nem benéfico.

E é bom saber que, mesmo tendo vivido com esse limite, é sempre possível alterar esse condicionamento, esse papel pré-definido, de um comportamento expectável.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 16:13

Coisas simples: alucinações auditivas

Sábado, 06.03.10

 

Desde 2ª feira que ando com esta perplexidade. Será que sofri uma alucinação auditiva ou ouvi mesmo esta frase a Miguel Sousa Tavares no final da entrevista a um ex-investigador da PJ com o livro apreendido: Já lhe arquivei a entrevista...?

Será que ouvi bem?

Nesse caso, como posso ter ouvido esta análise ao mesmo jornalista no início do programa: a liberdade de expressão nunca esteve em causa no país, mesmo referindo, com o maior desplante, que sempre houve pressões sobre jornalistas, etc. e tal?

 

Diferente, muito diferente, tinha sido a entrevista ao PM uma semana antes. A primeira do programa Sinais de Fogo.

E Candal, poucos minutos depois, a interromper a Zézinha na TVI24, que o PM já tinha dado o esclarecimento cabal sobre o assunto numa entrevista a um jornalista conceituado... que o assunto já estava encerrado...

 

Bem, nesta 2ª feira o Sinais de Fogo transformou-se em fogueira inquisitorial, pelos vistos. O entrevistado tem o livro apreendido, não pode referir-se ao seu conteúdo,  e é acusado pelo jornalista de vários delitos e nem sequer pode responder... Mas ainda conseguirá dizer: Está a pôr palavras na minha boca... isso não está no livro... Não leu o livro... Não leu o processo...

O jornalista já tem uma tese e trata-se de a impor. Aliás, já tem uma acusação formada, só falta a sentença. Pelos vistos, era arquivar a entrevista. Vá lá vá lá, podia ser pior...

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 22:25

"Lie to me": uma série muito útil

Quinta-feira, 04.03.10

 

Já aqui falei nesta série Lie to me, mas não cheguei a evidenciar toda a sua utilidade.

Trata-se essencialmente de um grupo de investigadores que apoia o trabalho policial, sobretudo nos interrogatórios. Tim Roth é muito convincente no papel de Dr. Cal Lightman. E as restantes personagens são complexas q.b. e nem sempre seguem as regras, o que torna a série mais credível. Os diálogos são cuidados e adequados. E as situações são muito actuais, cobrem uma realidade que está aí, como a escravatura urbana camuflada (no episódio mais recente que vi, por exemplo, abordou o problema dos imigrantes sem protecção social e, mais especificamente, as barrigas de aluguer).

 

Ora bem, como estudiosos da comunicação não-verbal, sobretudo da expressão facial, conseguem identificar, com uma mínima margem de erro, as emoções básicas como o ódio, a raiva, o desprezo, a vergonha. E algumas mais difíceis de captar, a que eles chamam micro-expressões, pormenores tão subtis que escapam facilmente ao investigador mais treinado, como o desgosto ou a mágoa, importante no caso do suicida potencial.

Mas o mais interessante é mesmo a diferenciação da verdade da mentira. Incrível. Conseguir identificar a mentira na expressão facial, a partir de diversos movimentos dos músculos faciais.

 

Sempre fixei a minha atenção na voz, treinei-me desde que me conheço para distinguir timbres, entoações, tonalidades, cores, das vozes mais diversas. Assim como pronúncias, entretenho-me, por exemplo, a identificar os locais de origem das pessoas. A sério!

E não apenas vozes do meu quotidiano, digamos assim, também as vozes dos actores, por exemplo. Identifico-os pela voz. 

Também me treinei para pressentir as emoções pela voz. Raramente me engano.

 

Mas na expressão facial, sou uma ingénua. Frente a frente, tendo a acreditar e a confiar no que me dizem. Isto é, na presença da pessoa, parto sempre do princípio que não tem qualquer razão para mentir.

É estranho e paradoxal, detectar mais facilmente a mentira à distância e pela voz, do que na presença da pessoa. E mesmo que alguém me diga que o que me disseram não corresponde à verdade, ainda assim hesito. Estranho, não é?

Por isso gosto tanto desta série! Já aprendi umas coisas. Pequenas nuances em que geralmente não reparamos.

Penso que da próxima vez já conseguirei detectar uma ou outra mentirita. Não é por nada, a maior parte das vezes, as mentiras são inofensivas e até amáveis, mas quando for o caso de alguma mais significativa e que possa fazer alguma diferença, não voltarei a cair que nem uma patinha...

 

A série passa às 4ªs feiras, na FOX, sempre depois das 22:00.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 16:29








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